O Jogo, o Corpo e a Vida: Do Sagrado Lúdico ao Aprisionamento Neocapitalista

Texto: Dayse Angela do Nascimento Azevedo. 30 de janeiro 2014    

Desde épocas remotas até os dias de hoje, o jogo acompanha e marca a cultura de diversas comunidades tradicionais, constituindo-se como uma atividade de referência e de fundamental importância para a vida social. Entende-se o jogo como um momento único de celebração, ligado à festa e à felicidade, sendo gratificante por si só. Ele estimula a imaginação e a criatividade, conferindo uma significação particular à "ação física" do performer.


Em sua obra clássica Homo Ludens, Johan Huizinga destaca dois exemplos fundamentais da sociedade humana perpassados pela dimensão do jogo: a linguagem — instrumento forjado pelo ser humano para comunicar, ensinar e dominar — e o mito, que constitui o fundamento divino, coletivo e sagrado das culturas.

A partir dessa leitura proposta por Huizinga, desenvolvo minhas reflexões sobre o jogo sob dois prismas complementares:

  • O jogo como linguagem do indivíduo em relação a si mesmo e ao outro: A linguagem corporal e a brincadeira com as palavras levam o ser humano a exteriorizar seu ritmo interno — articulando espírito, matéria e o mundo ao seu redor —, o que favorece e enriquece a comunicação.

  • O jogo em sua dimensão coletiva: Representado por sociedades de matriz animista que buscam, por meio dos mitos, dar sentido aos fenômenos da natureza e aos seres vivos, atribuindo-lhes fundamentos sagrados, divinos e religiosos.

Observa-se que o jogo desempenha um papel essencial tanto na esfera individual (como função vital) quanto na vida em comunidade (como função social). Quando o jogo é reconhecido como fenômeno cultural, ele permanece mesmo após a sua execução como uma criação do espírito — um tesouro a ser preservado pela memória e transmitido entre gerações, como ocorre em diversas comunidades nativas do Brasil.A Retirada do Lúdico e o Corpo Aprisionado
Diversos pensadores e pesquisadores apontam o brincar como um processo natural e evolutivo na experiência humana. Contudo, na contemporaneidade do século XXI, o brincar deixa de ser uma atividade lúdica de prazer e criação para se tornar um reflexo do que "sobra" dos sistemas de poder. O que resta é o individualismo, a inveja, o desrespeito, a insatisfação e a competição predatória — o desejo constante de ser o outro ou de possuir o que é do outro, resultando em uma profunda falta de horizonte existencial.

O Ocidente tendeu a marginalizar o jogo em sua cultura ao condicionar o corpo humano exclusivamente ao "trabalho sério". Hoje, nem mesmo as crianças encontram espaço para o brincar livre: crescem imersas no sedentarismo e no consumo, tornando-se, no futuro, adultos robotizados em suas condutas.

O corpo converteu-se no alvo central dos novos mecanismos de poder. Podemos falar em um corpo aprisionado, que encontra imensas dificuldades para liberar as tensões acumuladas no cotidiano, sujeito ao estresse, a distúrbios psicossomáticos e à depressão. Entre os males produzidos pelo sistema neocapitalista, destaca-se a padronização das subjetividades: a produção de sujeitos que pensam, agem e se comportam de maneira homogênea.

Essa lógica neocapitalista opera uma transformação sutil: se no passado o capital dependia prioritariamente da força física e braçal do trabalhador nas lavouras, fábricas e construções, hoje ele se apropria da própria subjetividade — capturando a criatividade, a imaginação e a inventividade do sujeito. Se antes se trabalhava para viver, hoje a lógica do rendimento constante leva ao esgotamento físico e mental em nome de ideais estéticos e de consumo inalcançáveis.

A festa e os momentos de celebração favorecem o encontro e a liberação temporária de fluxos energéticos, mas não resolvem a questão estrutural. Torna-se indispensável um trabalho contínuo voltado ao cuidado de si e ao autoconhecimento, que respeite cada ser humano em suas singularidades e diferenças.

Em síntese, o poder capturou a vida e atravessou as diversas instâncias da existência ao romper com preceitos éticos e dissociar a arte da vida cotidiana. O corpo permanece como o alvo principal dos dispositivos e das disciplinas que colocam a própria subjetividade em jogo.


Referências Bibliográficas 

  • HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 2000.

Links e Registros: YouTube: Formação de Professores


VER MAIS YOUTUBE: FORMAÇÃO PROFESSORES