Outras Maneiras de Dançar a Dança

"O texto escrito por Dayze Nascimento no ano de 2013 é, ainda hoje, atual por trazer reflexões e um posicionamento forte e necessário sobre o eurocentrismo na dança, a perda de raízes culturais e as dinâmicas sociais e religiosas no Brasil."



Não acreditem quando um profissional da dança disser que, para dançar qualquer modalidade, é preciso ter a dança clássica como base. Isso não é verdade; é mais um resquício de um pensamento elitista e colonizador. A dança clássica busca a linha vertical do corpo em direção a uma ideia de perfeição. Ao contrário dela, outras formas de dançar buscam o ritmo interno em direção às extremidades do corpo, em movimentos espirais, visando o bem-estar do corpo em suas relações: consigo mesmo, com o outro e com o meio de convívio. Respeitam o meio ambiente, a vida natural, as florestas, os mares, os animais e todos os seres vivos da Terra. Trata-se de um percurso e de um processo criativo do corpo no espaço-tempo-ritmo, cujo fluxo energético é vibratório e flui em movimentos ondulatórios e serpentinos, em diferentes direções, no aqui e agora da vida.

Observa-se na sociedade brasileira uma dinâmica de inversões culturais. Antes, verificavam-se em muitas esquinas e ruas do Rio de Janeiro manifestações e rituais de matrizes africanas. Hoje, não apenas essas manifestações se reduziram, mas também observa-se um movimento em que parte da população negra e periférica adere a religiões evangélicas/protestantes, enquanto pessoas brancas, que antes se declaravam católicas, passam a frequentar religiões de matriz africana. Vemos muitos pais e mães de santo brancos e, ao mesmo tempo, diversos pastores e fiéis negros nas igrejas.

Por consequência, se antes não era permitido dançar por razões religiosas, hoje a dança é bem-vinda em muitos templos evangélicos, reconhecida por seus fiéis como uma dádiva. Contudo, verifica-se nesse processo que a dança aceita é exclusivamente de inspiração europeia ou do gospel norte-americano. As danças e movimentos que remetem aos rituais de matriz africana continuam sendo rejeitados, proibidos e combatidos, assim como suas culturas de origem. Por esse motivo, muitos evitam a presença de instrumentos como o atabaque, associando-o erroneamente ao mal.

Na Europa, as culturas extracomunitárias — em particular a africana, a sul-americana e, em especial, a brasileira — estão presentes em centros culturais, associações, escolas e eventos promovidos pela União Europeia e por prefeituras. A capoeira e o samba são grandes expressões que representam o Brasil no exterior. Enquanto isso, no próprio Brasil, a cultura da dança clássica eurocêntrica ocupa espaços nas favelas, escolas periféricas e bairros populares, enquanto a capoeira e as danças de matriz africana ainda enfrentam resistências e até proibições em determinados ambientes escolares.

O que mais se escuta é o mesmo discurso de que o clássico é a base de tudo — uma forma de apagamento cultural, parecida com os processos históricos que visavam nos deixar sem pertencimento, sem passado e sem história. A inversão de valores e o desrespeito aos saberes populares ainda se dão hoje, no campo cultural brasileiro, por meio dessas e de tantas outras contradições.